VTEX Day 2026 - o que vimos, o que ficou e o que muda a partir de agora
- Danilo Silva
- há 15 horas
- 6 min de leitura

Chegar no São Paulo Expo nos dias 16 e 17 de abril e ver 25 mil pessoas por dia circulando entre nove palcos simultâneos diz alguma coisa sobre o momento em que o varejo digital está. Fui ao VTEX Day 2026 com curiosidade sobre uma coisa específica: do que todo mundo está falando sobre IA, o que já é realidade operacional e o que ainda é promessa de keynote?
A tese central do evento não veio de nenhum slide elaborado. Veio de uma frase de Geraldo Thomaz, cofundador da VTEX, dita com uma honestidade rara para um palco corporativo: "Eu me perguntei se a VTEX, com a IA, tinha futuro." Para quem foi lá esperando ver uma empresa celebrando seus resultados, foi uma abertura desarmante, e que ajudou a calibrar tudo o que viria a seguir. O que o VTEX Day 2026 entregou não foi uma celebração do presente. Foi um mapa de onde o varejo precisa chegar.
O que foi mais interessante
De tudo que vimos e ouvimos em dois dias, a frase que mais ficou comigo veio de Frederico Trajano, CEO do Magalu, no Main Stage: "No futuro, quase toda a jornada de compras vai necessariamente passar por um agente de IA. Esqueça buscas no Google, fotos de produtos, descrições intermináveis. Tudo vai mudar de forma muito intensa." Ele comparou essa mudança ao que o e-commerce fez com a loja física, uma transformação que parecia distante até o momento em que passou a ser inevitável.
Neil Patel trouxe os números que sustentam essa intuição. Cerca de metade das buscas no Google já dispara AI Overviews. 91% das respostas geradas por IA vêm de conteúdo de terceiros, apenas 9% sai do site da própria marca. E quando a IA cita uma marca, a taxa de conversão é 23 vezes maior do que a busca tradicional. O que isso significa na prática é que a batalha pelo cliente está acontecendo cada vez mais fora do domínio da empresa, em artigos, avaliações, menções, earned media. Patel resumiu de um jeito difícil de esquecer: "Seu maior concorrente hoje não é outra empresa. É a IA que não te recomenda."
Para quem trabalha com marca, e é exatamente o que fazemos na LOUDR, essa mudança não é sobre tecnologia. É sobre reputação. Sobre singularidade. Sobre o que uma marca é de verdade, antes de qualquer campanha. Quando o consumidor delega a decisão de compra para um agente, o que entra em jogo é se aquela marca merece ser a resposta.
Os lançamentos da VTEX
A VTEX aproveitou o evento para anunciar o VTEX Vision 2026, uma reformulação estrutural em três plataformas que mostram claramente onde a empresa está colocando suas fichas. A Commerce Platform traz o AI Workspace com quatro agentes nativos pré-treinados para catálogo, promoções, busca e business insights. A CX Platform vai além do atendimento automatizado: agentes autônomos operando via WhatsApp e voz, com o case da C&A como prova concreta, 89% das interações de atendimento digital automatizadas. A Ads Platform entra na disputa de retail media com a VTEX X Platform, posicionada como alternativa ao duopólio Meta/Google para o varejo médio.
O anúncio que mais me chamou atenção foi a integração com o Universal Commerce Protocol do Google, que permite descoberta e checkout diretamente dentro do Gemini e do Google AI Mode. É um sinal concreto de para onde vai a jornada de compra: cada vez menos dentro dos sites das marcas, cada vez mais dentro dos ambientes que o consumidor já usa no dia a dia. Para quem ainda está focado em otimizar página de produto, é uma mudança de endereço, não de decoração.
Insights e tendências que ficaram
IA agêntica como nova realidade operacional
A leitura que saí com ela é que o VTEX Day 2026 marcou a transição da IA generativa para a IA operacional, agentes autônomos que monitoram concorrência, ajustam campanhas, atualizam catálogos, fecham vendas e operam pós-venda. Rodrigo Cursi, da FRN³, escreveu na E-Commerce Brasil uma distinção que achei precisa: "o consumidor deixou de navegar e passou a delegar." Essa frase resume bem o que muda na relação entre marcas e pessoas.
Comércio conversacional e WhatsApp como canal de venda
A VTEX demonstrou jornadas completas de compra dentro do WhatsApp, incluindo Voice Mode, compra por comando de voz com renderização visual simultânea. Marcos Oliveira, do Meta, palestrou sobre o WhatsApp como plataforma de vendas, e Frederico Trajano defendeu que essa nova jornada conversacional pode fazer com o e-commerce o que o e-commerce fez com a loja física. Levando em conta que 60% dos consumidores brasileiros iniciam suas compras a partir de algum tipo de recomendação, não por busca direta, a aposta faz sentido.
Retail media como próxima fronteira de receita
O palco VTEX Ads Platform foi quase integralmente dedicado ao tema. As projeções da Omdia apontam para US$ 293 bilhões em 2029, quando o retail media deve superar a busca paga como maior segmento global de publicidade digital. O varejo que tem dados proprietários de comportamento de compra está sentado em cima de um ativo que ainda não aprendeu a monetizar. Quem acordar para isso primeiro vai ter uma vantagem difícil de compensar depois.
SEO algorítmico e a nova lógica de busca
Neil Patel foi o palestrante que trouxe mais dados concretos sobre o impacto da IA no tráfego digital. Cerca de 58% das buscas nos EUA já se encerram dentro da página de resultados do Google, sem clique externo. Isso muda completamente a lógica de como as marcas precisam pensar em conteúdo, não mais para gerar clique, mas para ser citada. Quando a IA escolhe uma marca, a conversão é 23 vezes maior do que pela busca tradicional. Quando não escolhe, a marca simplesmente não existe naquela jornada.
Capitalismo consciente e propósito
John Mackey, cofundador da Whole Foods, conduziu uma das conversas mais citadas do evento, com Mariano Gomide, no Main Stage. O que me ficou não foram as frases sobre capitalismo consciente, que já eram esperadas, mas uma observação sobre marca que soa simples e diz muito: "Não estávamos tentando construir uma marca. Estávamos apenas tentando abrir boas lojas." E sobre liderança: "Você não pode ser apenas CEO. Você precisa ser o Chief Cultural Officer, o guardião da cultura." A singularidade que atrai não é construída de fora para dentro.
A pressão das gigantes asiáticas
William Tang, diretor de operações do Alibaba Group no Brasil, apresentou a tese de que o diferencial do AliExpress não é preço, é sistema. Três camadas integradas operando como rede: logística, dados e fornecedores. "Quando você faz um pedido, a logística começa imediatamente. Em poucas horas o pacote já está preparado para sair." A discussão sobre como o varejo brasileiro responde a esse modelo atravessou vários palcos e não tem uma resposta simples. Mas ignorar o tamanho da pressão seria um erro.
Macroeconomia no centro da pauta
Fernando Honorato, do Bradesco, e João Scandiuzzi, do BTG Pactual, traçaram o cenário de juros, câmbio, inflação e ciclo de IA com Copa do Mundo e ano eleitoral pela frente. O que me chamou atenção foi a inclusão da pauta econômica num evento de varejo digital, um sinal de que crescer no digital em 2026 exige leitura de contexto, não só de plataforma.
Logística e pagamentos invisíveis.
Em painel com Amazon, Bagaggio e Krispy Kreme, o tema do frete voltou à tona como fator decisivo, estudos brasileiros indicam que entre 67% e 75% dos consumidores citam prazo e custo de entrega como fatores centrais na decisão de compra. Renato Pavelosk Migliacci, da Adyen, defendeu um conceito que achei interessante: o "checkout invisível". "Em alguns aplicativos, gastamos mais do que pretendíamos porque o pagamento desapareceu,a etapa de compra se tornou tão natural que deixou de ser percebida." A experiência de compra mais eficiente é aquela que o consumidor não sente.
O momento mais humano do evento
O lançamento do Brazilian Engineering Awards foi o ápice emocional dos dois dias. Laís Souza subiu ao palco com uma órtese de tecnologia assistiva e ficou em pé pela primeira vez diante do público para entregar o prêmio à cientista Tatiana Sampaio, pesquisadora da polilaminina na UFRJ, proteína com potencial de regeneração de lesões medulares, com testes clínicos aprovados pela Anvisa. Num evento dominado por lançamentos e projeções, foi o lembrete de que tecnologia, quando está a serviço de algo maior do que ela mesma, tem uma força que nenhum pitch consegue replicar. Mariano Gomide falou em posicionar a engenharia brasileira como marca de exportação global e naquele momento, a ideia fez todo o sentido.
Saí do VTEX Day 2026 com mais perguntas do que respostas e acho que é assim que deveria ser. O evento entregou um retrato honesto de um mercado em transição acelerada, com empresas tentando se adaptar em tempo real a mudanças que ainda estão acontecendo. A pergunta que trouxe de volta para dentro dos projetos que conduzimos na LOUDR é simples: quando um agente de IA for escolher qual marca recomendar, a sua vai estar entre as opções? E se a resposta ainda não for imediata, talvez seja hora de começar a pensar nisso.


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